quarta-feira, 18 de março de 2026

MEDIDA DRÁSTICA DA SEDUC

Sem biblioteca, mas com exigência de luxo: Escola estadual em Buriti dos Lopes impede entrada de alunos sem tênis

Para muitos pais, a regra soa como um insulto. Com a inflação dos alimentos e a falta de emprego, a escolha muitas vezes é entre um par de tênis de R$ 150,00 ou completar a feira do mês. 

BURITI DOS LOPES, PI – Em um cenário de crise econômica onde famílias lutam para garantir o básico no prato, o Governo do Estado toma mais uma decisão polêmica. A Escola Estadual Deputada Francisca Trindade tornou-se palco de uma medida que ignora a realidade social de seus estudantes. Desde esta quarta-feira (18), o acesso às salas de aula está sendo negado a quem não estiver calçando tênis, uma exigência que assemelha a unidade pública a instituições particulares de elite, mas sem oferecer a contrapartida do suporte financeiro.

O rigor que ignora a fome

Relatos recebidos pelo Portal Boca do Povo mostram a indignação de alunos que foram barrados no portão por estarem usando chinelas ou sandálias. A mensagem enviada pela direção, assinada pelo Prof. Henrique Soares, é taxativa: "será permitida a entrada na escola somente de alunos que estiverem com o fardamento completo... não sendo permitida a entrada com sandálias, chinelos ou outros tipos de calçados".

Para muitos pais em Buriti dos Lopes, a regra soa como um insulto. Com a inflação dos alimentos e a falta de emprego, a escolha muitas vezes é entre um par de tênis de R$ 150,00 ou completar a feira do mês. "Muitos não têm condições de comprar. Esse mês nem recebemos o Pé de Meia", desabafa uma aluna em conversa com nossa redação.

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Escola estadual Deputada Francisca Trindade - Buriti dos Lopes / Imagem: Arquivo-BP

Pé de Meia atrasado e falta de infraestrutura

A denúncia ganha contornos ainda mais graves quando se observa a falha nos programas de auxílio. O Pé de Meia, programa do Governo Federal criado justamente para manter o jovem de baixa renda na escola, está com pagamentos atrasados segundo os estudantes. Sem esse recurso, a exigência do calçado fechado torna-se uma barreira intransponível para a educação.

Enquanto a escola se preocupa com o que o aluno calça, a estrutura física parece estar em segundo plano. Estudantes relatam que a biblioteca deixou de existir para virar sala de aula; o laboratório de informática e a sala de computação foram desativados pelo mesmo motivo, e a escola opera com um déficit de pelo menos quatro salas de aula, improvisando espaços pedagógicos para suprir a demanda.

A ordem que vem "de cima"

Informações colhidas junto a membros da escola indicam que a diretriz de proibição das "Havaianas" teria partido diretamente da SEDUC (Secretaria de Estado da Educação). Se confirmada, a orientação revela um distanciamento preocupante do órgão público com a realidade das comunidades do interior do Piauí.

A educação é um direito constitucional e não pode ser condicionada ao uso de uma marca ou tipo específico de calçado, especialmente quando o Estado falha em prover o básico e o contexto social é de vulnerabilidade. Impedir um aluno de assistir aula por causa de um chinelo é, acima de tudo, uma medida de exclusão social disfarçada de "disciplina".

NOTA DA REDAÇÃO: O Portal Boca do Povo preza pela ética e pela pluralidade de vozes. Informamos que o espaço está aberto para que o Professor Henrique Soares, a direção do Ceti Deputada Francisca Trindade ou a Secretaria de Estado da Educação (SEDUC) apresentem esclarecimentos ou notas oficiais sobre a medida de fardamento citada nesta reportagem. O conteúdo será atualizado assim que houver um posicionamento oficial das partes mencionadas.

Da REDAÇÃO (Portal Boca do Povo)

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