Sem biblioteca, mas com exigência de luxo: Escola estadual em Buriti dos Lopes impede entrada de alunos sem tênis
Para muitos pais, a regra soa como um insulto. Com a inflação dos alimentos e a falta de emprego, a escolha muitas vezes é entre um par de tênis de R$ 150,00 ou completar a feira do mês.
BURITI DOS LOPES, PI
– Em um cenário de crise econômica onde famílias lutam para garantir o básico
no prato, o Governo do Estado toma mais uma decisão polêmica. A Escola Estadual Deputada Francisca Trindade tornou-se palco de uma
medida que ignora a realidade social de seus estudantes. Desde esta
quarta-feira (18), o acesso às salas de aula está sendo negado a quem não
estiver calçando tênis, uma exigência que assemelha a unidade pública a
instituições particulares de elite, mas sem oferecer a contrapartida do suporte
financeiro.
O rigor que ignora a fome
Relatos recebidos pelo Portal Boca
do Povo mostram a indignação de alunos que foram barrados no portão por
estarem usando chinelas ou sandálias. A mensagem enviada pela direção, assinada
pelo Prof. Henrique Soares, é taxativa: "será permitida a entrada na
escola somente de alunos que estiverem com o fardamento completo... não sendo
permitida a entrada com sandálias, chinelos ou outros tipos de calçados".
Para muitos pais em Buriti dos Lopes, a regra soa
como um insulto. Com a inflação dos alimentos e a falta de emprego, a escolha
muitas vezes é entre um par de tênis de R$ 150,00 ou completar a feira do mês.
"Muitos não têm condições de comprar. Esse mês nem recebemos o Pé de
Meia", desabafa uma aluna em conversa com nossa redação.
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| Escola estadual Deputada Francisca Trindade - Buriti dos Lopes / Imagem: Arquivo-BP |
Pé de Meia atrasado e falta de infraestrutura
A denúncia ganha contornos ainda mais graves quando
se observa a falha nos programas de auxílio. O Pé de Meia, programa do Governo
Federal criado justamente para manter o jovem de baixa renda na escola, está
com pagamentos atrasados segundo os estudantes. Sem esse recurso, a exigência
do calçado fechado torna-se uma barreira intransponível para a educação.
Enquanto a escola se preocupa com o que o aluno
calça, a estrutura física parece estar em segundo plano. Estudantes relatam que
a biblioteca deixou de existir para virar sala de aula; o laboratório de
informática e a sala de computação foram desativados pelo mesmo motivo, e a
escola opera com um déficit de pelo menos quatro salas de aula, improvisando
espaços pedagógicos para suprir a demanda.
A ordem que vem "de cima"
Informações colhidas junto a membros da escola
indicam que a diretriz de proibição das "Havaianas" teria partido
diretamente da SEDUC (Secretaria de Estado da Educação). Se confirmada, a
orientação revela um distanciamento preocupante do órgão público com a
realidade das comunidades do interior do Piauí.
A educação é um direito constitucional e não pode
ser condicionada ao uso de uma marca ou tipo específico de calçado,
especialmente quando o Estado falha em prover o básico e o contexto social é de
vulnerabilidade. Impedir um aluno de assistir aula por causa de um chinelo é,
acima de tudo, uma medida de exclusão social disfarçada de
"disciplina".
NOTA DA REDAÇÃO:
O Portal Boca do Povo preza pela ética e pela pluralidade de vozes.
Informamos que o espaço está aberto para que o Professor Henrique Soares, a
direção do Ceti Deputada Francisca Trindade ou a Secretaria de Estado da Educação (SEDUC) apresentem esclarecimentos ou notas oficiais sobre a medida de
fardamento citada nesta reportagem. O conteúdo será atualizado assim que houver
um posicionamento oficial das partes mencionadas.
Da REDAÇÃO (Portal Boca do Povo)


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